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SENAI forma profissionais para primeira usina de bioenergia de Angola

Além de açúcar, a usina localizada a cerca de 400 quilômetros da capital Luanda, vai produzir etanol e energia elétrica

José Monteiro Gonga fez o curso de operador de processos industriais do SENAI

Aos 22 anos, José Monteiro Gonga descobriu uma nova profissão. Com o ensino médio no currículo, ele foi um dos 350 profissionais da Biocom – Companhia de Bioenergia de Angola, situada em Cacuso, na província de Malanje, a participar dos cursos de qualificação realizados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) no país este ano. Hoje operador de processos industriais, ele sonha em fazer o curso superior de engenharia eletrônica. "Com certeza terei ainda mais oportunidades", diz.

Gonga trabalha na primeira usina de bionergia do país africano. As obras para construir a Biocom, do grupo Odebrecht, em parceria com outras duas empresas locais, começaram em 2008. No entanto, os primeiros grãos de açúcar só foram produzidos no fim de agosto deste ano, mesma semana em que a equipe do betsson visitou as instalações da empresa a convite da Odebrecht.

Além de açúcar, a usina, localizada a cerca de 400 quilômetros da capital Luanda, vai produzir etanol e energia elétrica. “É a primeira fábrica desse tipo em Angola.  Portanto, é  uma oportunidade única para a minha carreira”, conta José Gonga, que é órfão e atualmente mora com tios e primos em Cacuso.

De acordo com o gerente de pessoal e sustentabilidade da Biocom, Fernando Koch, a empresa tem como princípios a transferência de tecnologia e capacitação de mão de obra local. “Os brasileiros estão aqui para formar os angolanos. Queremos trazer desenvolvimento e qualificação à região para que um dia os angolanos assumam o controle. Por isso, é tão importante nossa parceria com o SENAI. Ele traz o melhor do conhecimento do Brasil para cá”, explica Koch. Atualmente, dos 2.176 funcionários da usina, 141 são brasileiros expatriados.

PARCERIA COM O SENAI - Desde 2007 o SENAI mantém parceria com a Odebrecht Agroindustrial, em Mato Grosso do Sul, no desenvolvimento de programas de qualificação profissional no setor sucroalcooleiro. O SENAI também atende às demandas da empresa por educação profissional em mais três estados: Goiás, Mato Grosso e São Paulo.

Foi por isso que a Biocom procurou o SENAI. Em 2008, o SENAI MS qualificou os primeiros operadores do processo sucroalcooleiro da planta localizada no município de Nova Alvorada do Sul, respondendo à necessidade de qualificação dos profissionais da nova usina de açúcar e álcool da ETH Bioenergia, atual Odebrecht Agroindustrial. Em 2009, esse modelo serviu de referência para um programa de qualificação de 62 profissionais angolanos enviados pela Odebrecht ao Centro de Educação e Tecnologia do SENAI em Dourados, no interior de Mato Grosso do Sul.

Com a necessidade de qualificar um número maior de profissionais, a decisão foi seguir o caminho inverso e levar professores do Brasil para a África. "Os angolanos têm muita garra. Eles abraçam as oportunidades e demonstram muita vontade de aprender", afirma a responsável pela formação e capacitação dos profissionais da Biocom, Marli Ferrante Montoro. Ela  trabalhou no SENAI de Lençóis Paulista, interior de São Paulo, por 11 anos, antes de se mudar para Angola e trabalhar na Biocom.

Na construção da usina, Carlos Fuxi ajudou na montagem das turbinas, como a mostrada na foto. Hoje, após o curso do SENAI, é mecânico industrial

"OS BRASILEIROS ESTÃO AQUI PARA FORMAR OS ANGOLANOS. QUEREMOS TRAZER DESENVOLVIMENTO E QUALIFICAÇÃO À REGIÃO PARA QUE UM DIA OS ANGOLANOS ASSUMAM O CONTROLE." Fernando Koch, Gerente de Pessoal e Sustentabilidade da Biocom

CURSOS - Naquele país, o SENAI ministrou os cursos de operador de processo da indústria sucroalcooleira e de bioenergia, analista de laboratório industrial, mecânico industrial, eletricista Industrial, instrumentista industrial, caldeiraria, soldador (MAG/MIG e TIG) e torneiro mecânico.

O angolano Carlos Afonso Fuxi, de 27 anos, fez o de mecânica industrial. Durante a construção da usina da Biocom, ele ajudou na montagem das turbinas (foto). Agora, após o curso do SENAI, atua em sua área e quer fazer carreira na empresa. “O país está crescendo. As aulas do SENAI foram ótimas, me prepararam para o que estou fazendo hoje, na prática, aqui na fábrica”, diz.

Carlos Afonso e José Gonga agora são replicadores do conhecimento que adquiriram com o SENAI. As aulas foram realizadas no Centro de Formação Profissional de Cacuso com uso de simuladores, metodologia semelhante à realizada nas unidades do SENAI no Brasil. Os profissionais participaram, até, de uma espécie de Olimpíada do Conhecimento, o maior torneio de educação profissional das américas, realizado pelo SENAI no início deste mês em Belo Horizonte.

“Fizemos uma competição de perguntas e respostas sobre a operação de equipamentos e o dia a dia da indústria inspirada na Olimpíada. Os estudantes se engajaram bastante”, conta Marli Montoro. O destaque da disputa foi José Gonga. “Tento fazer o meu melhor e sempre colocar em prática aquilo que aprendi”, diz ele.

A Odebrecht e as angolanas Cochan e Sonangol investiram US$ 750 milhões para construir a Biocom

EXPORTAÇÃO - A Biocom tem planos ousados. Pretende tornar o país de língua portuguesa, que até o mês passado não produzia praticamente nada de açúcar, em um grande exportador do produto para os demais países do continente a partir de 2021. Antes, no entanto, a meta é atender a 100% da demanda local, que hoje representa uma produção de 260 mil toneladas por ano.

Angola, que tem como grandes símbolos a palanca negra (espécie de antílope), as quedas de Kalandula (quedas d'água) e o baobá, por lá chamado de imbondeiro, está em expansão. Entre 2002 e 2009, alcançou uma média de crescimento de 18% do PIB ao ano, mas, após a crise internacional, a taxa diminuiu. Em 2014, o PIB já supera em 5,1% o do ano anterior. Crescimento que é nitidamente percebido em Luanda, um canteiro de obras gigante. Condomínios residenciais, shoppings, edifícios comerciais e de luxo estão sendo construídos por todos os cantos, e por isso precisa de profissionais qualificados.

Com a economia devastada após quase três décadas de conflito armado (durou de 1979 a 2002), praticamente tudo que é consumido por lá é importado, o que influencia diretamente a fama da capital angolana de uma das cidades mais caras do planeta (um pacote de presunto comum, por exemplo, pode custar mais de US$ 8 por lá). O país é um importante exportador de petróleo e diamante.

A Odebrecht e as angolanas Cochan e Sonangol investiram US$ 750 milhões para construir a Biocom. Na safra 2014/15, a produção deve alcançar 18 mil toneladas de açúcar, batizado de Kapanda, além de 117 gigawats (GWh) de energia e 2 milhões de litros de etanol. Em quatro anos, esses números aumentarão para 256 mil toneladas de açúcar, 256 GWh e 23 milhões de litros de etanol.

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